Declínio de um homem: bastidores

Declínio de um homem: bastidores

          Eu poderia escrever sobre o livro Declínio de um homem, de Osamu Dazai, sua estrutura em três cadernos, sua visão pessimista do mundo e seu medo dos demais seres humanos, mas basta ler o romance para averiguar isso e muito mais.
            Eu poderia falar sobre a vida do autor, suas tentativas de suicídio, suas mulheres e sua boemia, porém, já está tudo aí, mastigadinho, na internet.
Eu poderia muito bem ter feito uma resenha do livro que eu mesmo traduzi, mas acho que outras pessoas vão ver e apresentar passagens e ideias mais originais do que qualquer coisa que eu tenha para falar sobre o autor ou a obra. Se você só quer saber sobre a história, siga até o fim do texto e clique no vídeo. Ele é muito bom.
Achei que seria mais interessante contar sobre a feitura da versão brasileira do livro de Dazai. Falar sobre os bastidores, da fagulha que engendrou o fogo da criação, da rotina de noites e noites de diálogo com o autor e da publicação deste fruto de trabalho intenso.


Sobre a ideia.
Tóquio, Abril/Maio de 2010.
         A ideia de traduzir o romance surgiu com naturalidade: “o ningen shikkaku do Dazai ainda não tem tradução para o português no Brasil, lembra?” Palavras que meu inconsciente sussurrou sorridentemente ao meu ouvido. Tratava-se de uma sugestão encantadora, que ajudaria a passar meus dias ocupado com algo que me soava mais como um gostoso passatempo do que uma espécie de trabalho e que me tiraria da rotina angustiante dos meus desprazeres daqueles dias (problemas junto à universidade japonesa à qual entrara e questões pessoais, basta dizer) e que me daria um tipo de folga de outras traduções que eu vinha fazendo a tempos.
        Naqueles dias turbulentos de 2010 ainda estava traduzindo o Heike Monogatari, que havia começado em 2008, e pretendia seguir me empenhando na tarefa de apresentar a primeira versão do clássico japonês em português até o final de 2012 – plano que se mostrou impraticável, devido ao conteúdo massivo do livro e ao pouquíssimo tempo que podia despender para trabalhar o texto. Uma pena.


             Sobre a tradução.
         Era 2010. Devo ter começado a traduzir o livro em Julho, durante o intenso calor do verão japonês. Estava em férias da faculdade e ajudava muito não precisar sair do dormitório para o que quer que fosse. Trabalhando aqui no fuso horário brasileiro, acordava às seis da tarde e seguia traduzindo até às oito da manhã do dia seguinte, quando caía exausto na cama e dormia até o entardecer. A escuridão da noite sempre me trouxe paz e clareza. É de noite que me sinto com mais energia e é quando as ideias afloram com muito pouco ou nenhum esforço. À noite quase não há barulho no mundo lá fora de nossos quartos, e os esparsos ruídos noturnos acabam se mesclando numa sinfonia calma tocada por uma orquestra eloquente. Tranquei-me no meu quarto minúsculo de dormitório universitário em Tóquio (entenda-se pequeno quarto num país onde tudo já é pequeno, pois tudo sempre pode ser menor por estes lados), munido apenas da minha cópia do ningen shikkaku em japonês, um computador, um dicionário e um ar-condicionado mantendo meu habitat em cerca de dezoito graus, vinte e quatro horas por dia. Embalado pelo ritmo da escuridão passei dois meses traduzindo. Ouvi de algumas pessoas que tinha traduzido rápido demais, mas 1) eu já havia lido o original três vezes antes de começar a traduzir e estava a par do conteúdo; 2) não é uma obra extensa e a linguagem não é complicada; 3) pude dedicar todo o meu tempo na tarefa a que me impunha. Poderia mesmo ter traduzido em apenas um mês, se estivesse com pressa (não estava), se houvesse pressão externa (não havia) ou se existisse algum motivo para a correria (não existia).


            Sobre o processo tradutório e as revisões.
         Não creio ter nada de novo para contar sobre o processo de tradução do original de Osamu Dazai para o português brasileiro contemporâneo. Lia trechos inteiros em japonês, escrevia parágrafos em português, não gostava, apagava-os e reescrevia tudo de novo. Relia os trechos em japonês e revisava o português, até gostar do produto final. O de sempre. A tradução como deve ser: feita e refeita, esmerada, aspirando à... satisfação. Existe perfeição na tradução? Deixo a pergunta aqui para os críticos.
            Terminada, a tradução ficou enfiada em uma gaveta, por vários meses.
         Minha primeira versão completa do texto, ainda que revisada três ou quatro vezes por mim mesmo, era problemática. Primeiro, deixo claro que revisar o próprio trabalho é tarefa ingrata: depois de sucessivas leituras e releituras de nossas próprias criações, acabamos ficando imunes a quaisquer erros, por mais gritantes que estes possam ser. Minha primeira versão do texto era hedionda. Não fosse pelo trabalho duro e altamente eficaz do meu amigo Filipe Kepler, que revisou o texto inteiro e ajudou a transformar uma tradução muitas vezes dura e áspera em uma leitura aprazível, revisando e constantemente trocando ideias comigo, é provável que o livro não fosse publicado. Dizem que a tradução é um trabalho solitário. Talvez, mas funciona muito melhor com um amigo por perto, especialmente se esse amigo é perfeccionista.
         Em fins de 2011, início de 2012, a tradução feita por mim e revisada por Filipe estava completa. Ela ficou dormindo em uma nova gaveta por mais alguns meses.


Sobre outras traduções.
            Outras traduções? Ah, sim. Tenho várias.
            Quando elas vão aparecer? Não sei. Não sei, não. Vamos ver.


            Sobre a publicação.
          Pra falar a verdade, eu prefiro não entrar em detalhes. Qualquer pessoa pode perceber que há um espaço de mais de dois anos entre a versão revisada e a versão publicada. Imaginem o que quiserem. Eu não vou dizer, nem sob tortura. Bem, talvez.
           O fato é que tudo deu certo. Publicado em fevereiro de 2015, o livro é muito bonito. Juro. Sem querer me gabar, é um dos livros mais bonitos que eu já vi numa estante brasileira. Palavra. Na contracapa dá pra ver meu nome (na segunda folha de rosto e na ficha catalográfica também!). Levei um susto quando vi o livro pela primeira vez. Aquela vertigem gostosa digna de acontecimentos grandes e inesperados. O produto final, acabado. Meu primeiro filho. Lindo. A capa é delicada e muitíssimo bem escolhida. Flores de cerejeira, que normalmente são associadas à alegria aparecem aqui tristonhas, num ramo apontando para baixo, flores decadentes, um belo exemplo de beleza e melancolia. Flores de cerejeira Dazaístas. Inventei agora.





Ricardo M. 27/11/2015

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